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Galardoado em novembro de 2013 com o Prémio Nacional de Ética no Desporto, pelo Estado Português, e em setembro de 2013 com o Prémio Willi Daume, pelo Comité Internacional de Fair Play, presidente honorário do European Fair Play Movement, o Prof. Dr. Carlos Gonçalves, em entrevista ao Plano Nacional de Ética no Desporto, revê uma vida dedicada à persistente promoção e defesa dos valores e da ética no desporto.
De que forma se iniciou na prática desportiva?
Comecei a minha carreira como praticante desportivo porque morava em Algés e tinha um local de prática desportiva muito apetecível que era o Sport Algés e Dafundo e, portanto, quando fiz 13 anos foi-me fácil, juntamente com um grupo de amigos e de colegas de escola, enveredar pela prática desportiva. Uns na natação e outros no basquetebol e ali e no CDUL fiquei vários anos como praticante desportivo.
Cedo entrou no desporto federado e com presença internacional. Como é para um jovem lida com a alta competição?
Sendo praticante do Sport Algés e Dafundo e CDUL e também praticante de andebol federado, no Sport Lisboa e Benfica, no escalão de juniores, nunca estive pressionado – digamos assim – com as exigências da chamada alta competição. Esse facto deu-me também a noção de outra maneira de encarar a prática desportiva.
Dou um pequeno exemplo disso mesmo. Foi iniciativa dos dirigentes do clube onde eu praticava basquetebol federado. Na altura havia os campeonatos regionais que apuravam as equipas participantes nos campeonatos nacionais. Num dos anos ficámos em último lugar do campeonato regional. Na última jornada jogávamos com o Sporting Clube de Portugal, que era o campeão de Lisboa e nós, Sport Algés e Dafundo, iriamos descer de divisão. Ora, a secção de Basquetebol teve a ideia de no último jogo entregarmos ao Sporting uma lanterna simbolizando “aqui estão os últimos a prestar-vos homenagem, nós como últimos, a nossa lanterna a premiar o vosso primeiro lugar”. Então entregámos, de facto, uma lanterna em ferro forjado no início do jogo com esse propósito.
O facto de ter sido internacional sénior muito jovem (aos 18 anos e 27 dias…) não alterou a minha forma de entender a prática desportiva competitiva.
De que forma o seu percurso pessoal e desportivo o conduziram na defesa dos valores e princípios da ética no desporto?
No Liceu Nacional de Oeiras tive um professor de Educação Física que me marcou profundamente, que foi a pessoa, para além dos meus pais, que mais me marcou na minha formação humana, formação cívica, formação desportiva e, posteriormente, formação profissional, foi o professor José de Sousa Esteves, hoje muito esquecido, infelizmente. De facto foi uma pessoa que marcou uma época no que diz respeito às questões sociológicas do desporto, às questões educativas e formativas do desporto, portanto alguém que me influenciou de forma relevante no que diz respeito à forma de encarar a prática desportiva, de “ver” o desporto como um fenómeno social total.
Como atleta, professor de educação física e treinador, de que forma a prática do desporto nas escolas contribui para a formação dos jovens?
Desde muito novo procurei, enquanto praticante, depois enquanto treinador e professor, ao longo de 36 anos de docente nas escolas básicas e secundárias, que as aulas de educação física, as práticas desportivas escolares decorressem sempre de acordo com uma determinada conceção de prática desportiva.
E procurando ao máximo aproveitar aquilo o que o desporto pode dar para a formação dos jovens praticantes, porque é a única “disciplina” dentro do currículo escolar que tem um “conteúdo” diferente o que não significa que os valores, as atitudes, não possam e não devam ser abordados nas outras cadeiras. As aulas de educação física e a prática desportiva na escola tem características próprias, especificas, que podem e devem ser exploradas ao máximo como contributo inigualável da prática desportiva e para a formação dos jovens. E isso, portanto, para mim constituiu um pensamento constante, transversal enquanto praticante, treinador e professor. Treina-se para competir. Competir significa fazer o melhor possível, significa superar o adversário. É ele que nos obriga a ser cada vez melhores, sem ele eu não posso progredir. Não é inimigo, é um companheiro, com os mesmos objetivos que eu, ele faz parte de mim e eu faço parte dele, e portanto tenho de o encarar assim, e é esta, a verdadeira conceção que eu entendo da prática desportiva dos jovens. De facto, é este um contributo específico que a prática desportiva pode dar exatamente para o processo formativo dos jovens.
Quais são, no seu entender, os valores que devem reger qualquer atleta?
Qualquer prática desportiva, desde o desporto de recriação até ao desporto de alta competição, que não seja balizada por valores e sem princípios não tem futuro! Mesmo se considerarmos o desporto de alta competição, se não for baseado em valores, em princípios, em honestidade, em respeito pelo outro, respeito pelo próprio, respeito pelas regras – não só as escritas, mas de igual modo as que não estão escritas e que são as regras de respeito mútuo, de respeito pela outra pessoa. As regras não escritas, são regras que fazem parte de um contrato livre, não assinado, entre pessoas que entendem que devem participar num tipo de confronto mas que tem de ter regras, tacitamente aceite por todos. Isto é, a vitória a todo o custo não pode recompensar, e basta que haja um sinal de que tal se verifica, que os meios são legitimados pelos fins e então estaremos num outro tipo de civilização, um tipo de barbárie. Isto acontece no desporto como na vida em sociedade. Porque quando falo nestes valores e princípios não estou só a pensar no desporto, mas de igual modo na vida em sociedade: na política, na economia. Sem observar esses valores, viveremos na anarquia. Não há nenhuma sociedade organizada que não se baseie em princípios e valores…
Dir-me-ão que se trata de um pensamento lírico, utópico… que o seja, mas deixem-me seguir o pensamento de Martin Luther King: “I have a dream…” Será que poderemos viver sem sonhos?
O uso do doping por atletas de alto nível mantém-se muito presente. O mais recente caso de Lance Armstrong, por exemplo, que depois de ter confessado que usou doping foi processado pelas empresas que o patrocinavam…
E aqui temos uma coisa curiosa que é um efeito perverso, do meu ponto de vista um efeito perverso positivo, e não há contradição nestas duas palavras, porque grandes atletas patrocinados por grandes companhias, auferindo verbas elevadíssimas dos patrocinadores, quando considerados dopados são punidos e aí os patrocinadores retiram-se imediatamente, porque enquanto ele “rende”, tudo bem, é um excelente “embaixador” das empresas… mas uma vez considerados dopados as empresas retiram o seu apoio porque não querem ver o seu nome associado à batota ou à fraude desportiva…
Para a credibilidade e sustentabilidade do desporto de alta competição é indispensável que o mesmo decorra de acordo com um código de princípios e valores que o dignifiquem e relevem a sua importância social.
Mas, existe ainda quem defenda que legalização do uso de substâncias dopantes…
Hoje em dia, mesmo dentro de alguns meios académicos europeus, e eu constatei isso nalguns congressos, alguns docentes universitários diziam frontalmente: “Carlos, no EFPM defendem a igualdade de oportunidades no desporto vocês estão a seguir uma via errada, essa não é a via. A via é permitirem o doping livre. Com esta medida é que vocês vão chegar à igualdade de oportunidades no desporto.”
Ora, vamos tentar desmontar este raciocínio, que eu percebo mas com o qual não concordo.
Naquele raciocínio merece o meu completo desacordo. Neste aspecto do doping, como uma violência e na batota no desporto, a minha posição é de “tolerância zero”.
É verdade que cada vez são conhecidos mais casos de atletas dopados, em diferentes modalidades e escalões etários, também porque os meios de divulgação dos “acontecimentos” são completamente diferentes dos de 3 ou 4 décadas atrás… mas ao reconhecermos tais factos não podemos ignorar os progressos alcançados no mesmo período pela AMA (Agência Mundial Anti-dopagem), pelos laboratórios nacionais Anti-dopagem e pelas Federações nacionais…
Mas voltando à sua questão, porque somos totalmente contra a liberalização do uso de substâncias consideradas dopantes (as como tal consideradas pela AMA) nas práticas desportivas? Por 3 razões fundamentais (por simples ordem cronológica):
Será este o tipo de desporto que estaremos interessados em legar às gerações vindouras?
Nesta matéria exigem-se medidas firmes e consequentes, de duas ordem: repressão firme e educação permanente.
Quando é que pensou em ir mais longe na defesa destes princípios éticos desportivos? E como foi o percurso até à formação do European Fair Play Movement?
Desde 1984 que na Europa alguns países divulgavam já planos de desenvolvimento do Espirito Desportivo, com algum impacto a nível do movimento desportivo europeu. A partir de 1989, esses países começaram a promover reuniões anuais tendentes a confrontar ideias, programas e a viabilidade da sua implementação.
Exactamente, em 1989 fui convidado para desenvolver um programa de promoção do espirito desportivo na Camara Municipal de Oeiras, sendo vereador do Desporto, o Prof. Noronha Feio e da Educação o Prof. Celorico Moreira. Nesse mesmo ano, realizámos em Oeiras um primeiro seminário, o Seminário Internacional sobre espirito desportivo. A partir daí, começámos a divulgar pela Europa as publicações e os estudos que entretanto fomos editando, até que em 1994, os países que anualmente se vinham reunindo, decidiram que era altura de formar um organismo europeu que aglutinasse todas estas organizações que estavam a trabalhar nesta área. É assim que, em maio de 1994, em Zurique, é decidida, numa assembleia constituinte, a criação do European Fair Play Movement.
Como qualifica a experiencia no European Fair Play Movement enquanto Presidente?
Na assembleia constituinte atrás referida composta por representantes de 14 países, entre os quais Portugal, foi decidido a constituição de um Comité Executivo provisório. Por uma mera circunstância de equilíbrio regional, fui indigitado para uma das vice-presidências da organização então criada, até que em 1995, no decorrer do 1º Congresso Europeu de Fair Play realizado em Istambul, foi eleito o primeiro Comité Executivo, tendo então mantido a posição de vice-presidente, até janeiro de 2001, em Paris, momento em que face à doença do então Presidente, Fritz Wijk (Holanda), no decorrer de uma Assembleia Geral extraordinária, fui eleito por unanimidade, por representantes de 24 países presentes, como presidente do EFPM para o período 2001-2004. Voltaria a ser re-eleito em 2004 e em 2008 para o desempenho das mesmas funções, de igual modo por unanimidade.
Sendo inteiramente a favor da limitação dos mandatos de todos os dirigentes desportivos (e não só…) eleitos, a nível nacional e europeu, entendi em 2012, que era o momento oportuno para me retirar das referidas funções, deixando espaço para uma nova geração. Ao serviço do EFPM completei assim 18 anos, 6 como vice-presidente e 12 como presidente.
A experiência vivida foi extremamente enriquecedora. Dirigir reuniões do Comité Executivo com representantes de 9 países e Assembleias Gerais com representantes de 30 países; participar em reuniões promovidas pelos departamentos de Desporto do conselho da Europa e da União Europeia; discutir com diferentes dirigentes do Comité Olímpico Europeu e dos Comités Olímpicos Nacionais a importância das questões éticas no Desporto e ter oportunidade de contactar com Comités nacionais de Fair Play de 40 países europeus, constituíram um acervo de experiências de conhecimentos teóricos e práticas e de contactos com dirigentes desportivos, treinadores, académicos, atletas de alta competição, etc… que muito me sensibilizaram e valorizaram pessoal e profissionalmente.
De salientar que toda esta experiência europeia não teria sido possível sem o permanente apoio financeiro da Administração pública desportiva e o apoio administrativo da Confederação do Desporto de Portugal.
Como vê o Plano Nacional de Ética no Desporto?
Desde 1989, que vinha defendendo a necessidade de haver um plano nacional que se preocupasse com o desenvolvimento e com a prossecução dos valores e dos princípios da ética do desporto e nomeadamente os princípios relativos ao denominado fair play ou espirito desportivo. De facto em diferentes fóruns e congressos nacionais e internacionais, através da Confederação do Desporto de Portugal e (de um texto que há uns anos atrás foi submetido a apreciação do Concelho Superior do Desporto), pugnávamos pela criação de um plano com aquelas preocupações.
Depois de 1994, com a vivência do que se passava a nível europeu, passámos a considerar lamentável que em Portugal se continuasse a entender, salvo iniciativas esporádicas normalmente conduzidas por camaras municipais ou universidades, que este não fosse um assunto que merecesse uma atenção especial ou prioritária pelos organismos desportivos governamentais ou não-governamentais.
O lançamento do actual Plano Nacional de Ética no Desporto não pode, portanto deixar de merecer o meu aplauso, restando-me desejar o melhor êxito na consecução dos seus objectivos. Tal traduzir-se-á, inequivocamente, numa melhoria qualitativa do Desporto nacional.
Entendo, todavia, que o sucesso do Plano terá de implicar o contributo de organismos governamentais (ministério da edução, secretaria de estado do desporto e juventude) e não-governamentais (confederação do desporto, comité olímpico de Portugal, federações desportivas, município e universidades de educação física e desporto), através de uma conjugação de esforços, de partilha de responsabilidades e tarefas.
Foi recentemente galardoado com o prémio Willi Daume pelo Comité Internacional de Fair Play e com o prémio nacional de Ética no Desporto, também pela Secretaria de Estado do Desporto e Juventude. Estas atribuições constituem um reconhecimento pelo seu esforço na prossecução dos valores desportivos…
Os prémios mundiais de Fair Play são atribuídos anualmente pelo Comité Internacional de Fair Play/CIFP, em três categorias:
Foi este o prémio que me foi atribuído em cerimónia que decorreu na sede da UNESCO, em Paris, em Setembro último, tendo em consideração: “o notável trabalho e exemplar sucesso obtido na persistente defesa e promoção dos valores éticos do Desporto, em todas as práticas desportivas, como na vida em sociedade, na comunidade desportiva europeia, ao longo do exercício do seu mandato como vice-presidente do EFPM, de 1994 a 2000 e como presidente da mesma instituição de 2001 a 2013”.
Em relação ao prémio nacional de Ética no Desporto, que acaba de me ser atribuído pela Secretaria de Estado do Desporto e Juventude, naturalmente que me deixa satisfeito e honrado com a sua atribuição, que entendo-a como o eventual reconhecimento pelo meu exemplo e contributo prático enquanto praticante desportivo, treinador, professor e cidadão e desde 1989 pelo meu envolvimento activo e empenhado na análise e discussão da importância das questões éticas no desporto e para a sua introdução e desenvolvimento na agenda do Desporto nacional.
Pode ver aqui o currículo do Professor Carlos Gonçalves.